O Rito Adonhiramita

A Maçonaria e o Rito Adonhiramita- Contextualização

Ir. Luiz Muller

A Ordem Maçônica, iniciada oficialmente na Inglaterra, mais precisamente no ano de 1717, tendo como marco a fundação da Grande Loja de Londres. Hoje é a maior organização filosófica, não religiosa  do Planeta. Apesar dos seus  300 anos de história, julga-se porém que a mesma possui uma alma Milenar, por conta de sua cadeia de transmissão iniciática.

Porém, sempre devotada ao aprimoramento do “SER”, quer pratica ou filosoficamente, do seu corpo sempre fizeram parte os melhores, a Organização existe para; tornar os melhores ainda melhores. Fomentando uma incessante busca, desde a sua essência, de elevar o nível de consciência de seus membros e assim aumentar o nível de consciência de toda a humanidade.

Uma Verdadeira Escola, no sentido prático da palavra, onde não se observa a idade, nem condição social, primando pelo Estudo, busca do Aperfeiçoamento Moral e o Altruísmo por Fim!

É uma escola prática, que ensina através de seus rituais que o homem é mais do que aquilo que seus sentidos podem perceber. Ensinando através de símbolos, lendas e alegorias o caminho iniciático de quem dentro da Ordem ousa percorrer!

Um destes caminhos é o que chamamos Rito Adonhiramita! Dúvida posta por Louis de Travenol em seu “ Catechisme de Franc Maçons ou Le Secret Des Franc Maçons”  publicado em 1744 com o pseudônimo de Leonard de Gabaon. Obra está em que denominou “Adonhiram” como Arquiteto chefe da construção do templo de Salomão. Hoje comumente chamado de Hiram.

Ressaltando que em outros rituais franceses do mesmo período, era comum o aparecimento do nome Adonhiram, inclusive no “Recueil des Trois Premeires Grades de La Maçonnerie – Apprenti, Compagnon, Maitre au Rite Français”  de 1788, portanto não foi uma particularidade de Travenol, nem uma Irregularidade do rito, posto por alguns desinformados no desenvolvimento da história da Maçonaria da França.    

Em 1780, com o lançamento da obra “Catechism de Franc Maçons”, obra esta que na ocasião desagradou e muito os estudiosos da época, como resposta vemos o nascimento da obra Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite” de Louis Guillemain de Saint-Victor um sistema que veio se completar no ano de 1785 com seu segundo volume contendo a metodologia completa desta Ordem Adonhiramita.

Esta disposição surgiu do fato que os maçons Franceses, como é o caso, não se contentaram com somente os Graus do Simbolismo, Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom! E como temos no SÉC. XVIII, um “boom” de alquimia, astrologia, hermetismo, magia, rosacrucianismo, etc. Foram sendo criados uma vastidão de graus, que em muitas vezes tinham os mesmos nomes, porém com formas de diversas e métodos de reconhecimento que só eram peculiares aos que frequentavam aquelas lojas, ou melhor capítulos.

E isto é de fácil constatação, se observarmos o que acontecia nos ritos praticados no SÉC. XVIII na França, como o Rito Moderno e o Rito de Perfeição de Heredom (Coluna vertebral do hoje Rito Escocês Antigo e Aceito, REAA)

Desde a proposta do Irmão Orador Roëttier de Montaleau, 1782, “que se faça um estudo apurado de todos os graus praticados na França, para que se fizesse uma síntese dos mais importantes”, objetivando assim a criação de um sistema estruturado completando toda a filosofia maçônica.

Neste período houveram muitos reveses, de fato a situação veio somente a ter solidez a partir de 1784, quando Sete Capítulos Rosa + Cruz, se associaram para fundar o “Grande Capítulo Geral da França” que analisaram nada mais nada menos que 75 Altos Graus e mais de 135 ritos ou sistemas maçônicos. Entregando seu trabalho no segundo semestre de 1785.

Interessante este período, pois vimos brotar vários manuscritos como de Henry Andrew Francken, 1783, Rito de Perfeição e a Segunda Versão do Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite de Saint-Victor – 1785, Rito Adonhiramita.

A conexão fica clara, quando analisado à luz do Rito Moderno, Saint- Victor desmembrou os graus dos Eleitos e dos Escoceses, formando assim um sistema de 12 graus. Os Eleitos, os Escoceses o Cavaleiro da Espada e Cavaleiro Rosa + Cruz. Ampliando o estudo investigativo, pelo menos nos Eleitos e Escoceses, para os interessados em seu Rito.

No entanto em 1837 Jean Marie Ragon, pública o seu Orthodoxie maçonnique: suivie de la Maçonnerie occulte et de l’initiation hermétique”,  cometendo erros crassos, como a confusão do personagem Bíblico Hiram, arquiteto do templo com Adoniram, cobrador de impostos. Confundindo o sistema de 12 graus colocando 13, pois Saint-Victor, como curiosidade maçônica havia colocado ao final de sua obra um grau “Alemão”, Noaquita.  Também apontando como autor da obra Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite o Barão de Tchoudy! Erros estes que foram se perpetuando, tornando ainda mais densa a cortina que encobre esta prática ritualística. As Obras de Ragon acabaram por ter muita publicidade, pois o mesmo foi o editor do primeiro Jornal Maçônico Françês, “Hermes” e foi presidente da célebre Loja Parisiense “Les Vrais Amis” que acabou se tornando “Les Trinosophes”, Lojas ligadas ao capítulo “Areópage”, o que lhe acrescentou certa celebridade.

Mas de qualquer forma o Rito de Saint-Victor agradou e muito os franceses. Tanto na França como em Portugal e posteriormente no Brasil. Ao qual veio a ser um dos mais praticados no nosso país no início do século posterior.  A carta concedida para a Fundação do Grande Oriente Brasílico, previa a autorização para que se fossem trabalhados todos os graus que eram utilizados em França e Portugal, com exceção do REAA, que por determinação do Supremo Conselho de Charleston, exigia uma patente separada emitida por eles ou por quem os mesmos reconhecessem. O Supremo Conselho do REAA, fundado em 1832 passa então a trabalhar de forma independente no nosso território. No entanto em 1839 o GOB cria o “Grande Colégio dos Ritos”, um departamento para administrar os Ritos Adonhiramita, Moderno e Escocês, haja visto que por determinação do Supremo de Charleston, o REAA não poderia se subordinar a nenhum corpo e deveria atuar de forma independente. Outra questão surge quando em 1854 o REAA acaba sendo incorporado no GOB, oportunidade esta em que se criou o “Grande Colégio dos Ritos Azuis”. Em uma tentativa de corrigir esta anomalia foi criado o “Sublime Capítulo dos Ritos Azuis” para o Adonhiramita e Moderno – o REAA trabalharia colateralmente. Este Corpo teve curto prazo de existência, pois em 1863 ocorre uma dissidência conhecida como “Grande Oriente do Beneditinos”, onde floresceu o Rito Adonhiramita e foi criado na ocasião o “Grande Capítulo do Cavaleiros Noaquitas” ( Lembram da História de Ragon? 13 graus e Cavaleiro Noaquita como último grau do sistema! Aqui encontrou campo fértil esta abnormidade).  Depois em 1873, o Gob cria um corpo homônimo que no final acaba absorvendo os Beneditinos. Mas este corpo atua no gerenciamento do Rito Adonhiramita como um setor administrativo do GOB. Em 1951, há reflexo do que acontece na maçonaria internacional o GOB a partir do decreto n° 1641 passa a trabalhar somente nos três graus do simbolismo; Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom.  Em 1953 o “Grande Capítulo do Cavaleiros Noaquitas” passa-se a chamar “Sublime Grande Capítulo do Cavaleiros Noaquitas para o Brasil” e em 1968 esta instituição e o GOB assinam um tratado de Aliança e Amizade! Porém como a única certeza é a mudança, em 1973, com a insatisfação de  irmãos perante uma eleição do Grão Mestrado do GOB, 13 Orientes desligam-se da Potência, carregando consigo a maior parte das Lojas Adonhiramitas, o que ocasionou problemas no Corpo Superior, onde só poderiam ser aceitos Maçons ligados ao GOB.

Eis que aparece no cenário o Amado Irmão Aylton Menezes, ligado ao GOB, e com a hercúlea missão de não deixar morrer o Rito na Jurisdição da supracitada potência. Junto com Irmãos remanescentes, diligenciou uma cruzada para não deixar um dos mais belos ritos praticados pela Maçonaria morrer. E assim o fez. Como não possui efetivo para tal, começo a trabalhar com irmãos do REAA, porém mostraram-se pouco atraídos por um rito de apenas 13 Graus, na verdade 12 ( Ragon!!!). Construíram então uma estrutura similar ao REAA com 33 graus em escala, separados por “Ordens de Classes”.  Ponto peculiar este pois, o Rito Adonhiramita original, era baseado em “Ordens de Sapienciais Francesas”, com seu Nec Plus Ultra, (nada mais além) sendo o grau Rosa + Cruz!  Porém , todavia, assim foi e criou-se uma Estrutura chamada “ Excelso conselho da Maçonaria Adonhiramita” para administrar este novo formato ligado ao GOB, enquanto o “Sublime Grande Capítulo do Cavaleiros Noaquitas para o Brasil” ficou com uma estreita ligação com a Confederação  Maçônica do Brasil. E estas não foram as únicas modificações. Havia na ocasião, uma proximidade com a corrente conhecida como “Teosofia”, Doutrina esta, trazida por Helena Blavatsky, 1875, para o ocidente, buscando nos fundamentos das milenares doutrinas Ocultas do Oriente, o entendimento do mecanismo gerador do Cosmo. Fato este interessante, pois em meados dos anos 1880 já havíamos passado por uma situação similar com a “Golden Dawn” , que foi uma Ordem de estudo de Magia, criada por maçons justamente para deter os avanços da Teosofia dentro da ordem. Baseado nas Obras de Jorge Adoum, Joaquim Gervásio de Figueiredo, que todavia acompanhava o raciocínio de Ragon e principalmente  “ A Vida Oculta da Maçonaria – 1929 – C.W. Leadbeater”, ativo maçom ligado a Co-Maçonaria ( Maçonaria Mista, no sentido de homens e Mulheres) e Bispo da Igreja Católica Liberal, todos com estreitos laços com esta sociedade. Assim, analisando o Livro do Mosenhor Leadbeater, encontramos dentro de sua Liturgia, elementos ligados ao Ritual de Lauderdale, as práticas do Livro “The Science of the Sacraments -1920”,  e Ligações com o Ritual de Menfis-Misraim, juntando todos estes elementos e sabendo que alguns membros do Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita, eram leitores destas obras e/ou eram filiados a Sociedade Teosófica, estas alterações logo começaram a figurar nos rituais a partir de 1973. No Simbolismo do GOB, e em todos os rituais superiores do Excelso Conselho. Isto no final agradou a grande maioria, pois agora tinhamos um Rito Maçônico mais “ESOTÉRICO”, desde o simbolismo. E lastimosamente  temos um verdadeiro bombardeio de justificativas deste ou de outro procedimento dentro da Liturgia Adonhiramita, um show de horrores, apegando-se a detalhes que em muitas vezes não contribuem com o engrandecimento do “Ser” que é o que de fato interessa na maçonaria. Invariavelmente observamos os “Doutores de Deus, querendo revogar a Lei da Gravidade” e dando as explicações mais ridículas, apoiando-se em frágeis teorias metafísicas, quando que muitas das tradições vieram dos costumes cavalheirescos dos Sec. XVIII. expondo o despreparo e a falta de conhecimento dos Graus que com tanta ênfase ostentam. Irmãos que nem mesmo entende o que se trata uma cadeia esotérica de transmissão, nem a origem mística do rito achando que o ritual de incensação e do fogo, é tradicional no rito. E de forma geral tendendo para correntes espiritistas e ou ultra conservadoras da Ordem Romana, que nada tem com a verdadeira Gnose, intrínseca na essência laboral desta liturgia.

 

Concluímos que; de fato, o Rito Adonhiramita, como todos os outros ritos, não é para qualquer um. É necessário que se tenha um espírito de vanguarda, para a mínima compreensão do que se está participando. De forma imperiosa, é necessária uma busca contínua, nos novos e antigos livros e rituais, criando assim um espírito crítico na busca do entendimento que este trabalho necessita. Mantendo sempre a humildade necessária para que consiga chegar no conhecimento.  

 

Bibliografia:

 

Muniz, André Otávio Assis, Artigo O Rito Adonhiramita: História e idiossincrasias.

Saint-Victor, Louis Guillaume. Recueil Précieux de La Maçonnerie Adonhiramite. A Philadelphie:1783/1786

Muniz, André Otávio Assis,Curso Elementar de Maçonologia. São Paulo: Richard Veiga Editorial, 2016.

Francken, Henry Andrew, Francken Manuscript,1783.

Ritual do 1º Grau: Aprendiz Maçom Rito Adonhiramita. Brasília: Grande Oriente do Brasil, 2009.

Ritual do 1º Grau: Aprendiz Maçom Rito Adonhiramita. Rio de Janeiro: Grande Oriente do Brasil, 1954.

Ritual do 2º Grau: Companheiro Maçom Rito Adonhiramita. Rio de Janeiro: Grande Oriente do Brasil, 1938.

Ritual do 3º Grau: Mestre Maçom Rito Adonhiramita. Rio de Janeiro: Grande Oriente do Brasil, 1928.

Ritual do Grau de Cavaleiro Rosa-Cruz, Muito Poderoso e Sublime Grande Capítulo dos Cavaleiros Noaquitas para o Brasil, Gazeta Maçônica,Rio de Janeiro,1958. .

Leadbeater, C. W., A Vida Oculta na Maçonaria. ; São Paulo: Editora Pensamento, 1993.

Leadbeater, C. W., The Science of the Sacraments, Published by European-American University Press, 2007.

Anonimo,Recueil des Trois Premiers Grades de La Maçonnerie – Apprenti, Compagnon, Maitre au Rite Français., A L´Orient 1788.

Ragon,J.M.,Orthodoxie maçonnique: suivie de la Maçonnerie occulte et de l’initiation hermétique E. Dentu, Libraire-Editeur -1853

Ritual de Lauderdale – Le Droit Humain, Brasil

Rituales del Primer, Segundo i Tercer Grados Simbolicos del Soberano Santuario Internacional de Menfiz-Mizraim.

Regardie,Israel A Golden Dawn – A Aurora Dourada, Madras Editora – 2014